"Se tivesses acreditado na minha brincadeira de dizer verdades, teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço mas jamais duvidei da sinceridade da platéia que sorria." (Charles Chaplin).


domingo, 21 de junho de 2009

Fé.


— Vocês, ateus, nos querem tirar Deus para nos dar em lugar dele... o que? É o mesmo que tirar pão da boca de quem tem fome e dar-lhe em troca um punhado de cinzas ou de areia.
...

— Mas pão, cinza e areia são coisas concretas. Deus é uma abstração.
— Tu não acreditas no sucesso? Pois "sucesso" também é uma abstração".

[Olhai os lírios do campo. - Erico Veríssimo].

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Duas Coisas Sujas.

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." [Ensaio Sobre a Cegueira. - José Saramago].

Hoje tive duas impressões significativas dos seres humanos, coisas que eu nunca duvidei que ocorressem, eu só nunca tinha visto:

Primeiro veio um cara caminhando pela rua, entre outras tantas pessoas no ‘empurra-empurra’ do centro da cidade.

— Diz às horas, moça. – ele pediu.

Ela não deve ter notado, pois continuou andando, ela trazia uma sacola grade no mesmo braço do relógio, e quando ele a tocou no pulso pedindo licença, ela puxou o braço com voracidade e uma expressão nojenta; depois entrou numa loja qualquer.

O cara ficou parado um tempo, sem entender... e quando entendeu saiu caminhando meio humilhado.

— 16:30. – eu disse. Mas ele não ouviu.


···

Eu fui pra ali não sei porquê, estava dando voltas, matando o tempo...

Esperando.

A primeira coisa em que eu reparei foi na moto preta parada, estava brilhando por causa do sol que ia de encontro à superfície polida.

O homem montado na moto estava falando alguma coisa que eu não quis ouvir... até que aquele gesto me fez querer ver o quadro inteiro.

Aquele gesto não estava no contexto; era uma praça no centro da cidade. Definitivamente, aquele gesto estava descontextualizado.

Não lembro bem a descrição perfeita, mas suscitava obscenidade. Era incômodo.

Aí eu sentei no banco mais próximo e olhei...

Pro quadro completo.

O homem conversava com dois meninos entre 12 e 14 anos que eu já havia visto por ali pastorando motos. E o homem meneava a cabeça em direções indevidas, piscava um dos olhos simetricamente, e tinha aquele sorriso afetado.

Não estava certo.

Nada estava bem.

Tudo fora de contexto.

Fora de lógica.

Depois de um tempo, ele ligou a moto e acelerou um pouco, alguns centímetros a frente de onde estava, ele disse:

Já volto. – não sei se ouvi ou imaginei isso.

Fiquei um tempo ali sentado observando os carros indo e vindo... imaginei que ele voltaria a qualquer momento; e se voltasse...

— Eu sei o que você fez. – eu diria.

Eu diria?

Não sei.

“A bondade não deve ser uma virtude passiva...".

"É fácil ser mau, mas é mil vezes mais fácil ser indiferente."

[Olhai os lírios do Campo. - Erico Veríssimo].

terça-feira, 16 de junho de 2009

Efêmero.

“Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Marcos 13.31).

Não faz muito tempo eu percebi uma casa vazia aqui no bairro onde moro, e me senti estranho com isso, porque eu costumo passar ali por frente quase todos os dias e nunca tinha notado de verdade.
O que eu me lembro é de um 'sapateiro' de idade avançada que morava ali desde sempre, e que morreu há algum tempo...
mas eu nunca tinha parado pra pensar.
Nunca tinha notado...
a casa.
vazia.

Nunca tinha refletido sobre o que ele deixou pra trás, se ele tinha família - e de fato, não lembro de ter visto mais alguém lá. Ninguém além dele e os sapatos. E agora me vem à vista a casa. Ficou. E ele foi.

A verdade é que não dou notícia dele, não lembro como eram suas feições, não lembro de nada. Na minha mente a imagem ele está sempre relacionado à sapatos.
Não sei nada do seu temperamento ou da sua personalidade, tudo que sei é sobre os sapatos...
ele concertava sapatos. Mais nada.
... É bem nesse momento que eu me arrependo de não ter dado atenção;
não ter conhecido.
não ter falado pra ele sobre Deus. - hoje eu sei que ele precisava saber.

O FATO é que nem lembro se alguma vez já falei com ele, já faz tanto tempo, eu era uma criança, e agora crescido percebo que muita coisa já passou despercebida pela minha vida.

No fim das contas, agora é só uma casa...
sendo preenchida pelo mofo,
preenchida pelo vazio,
e ficando pra trás enquanto o tempo vai, e deixa, engole tudo.
Daqui a pouco, dela também esquecerei.

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